Um plano não precisa funcionar exatamente como previsto para continuar sendo útil. Ele pode ser tentado, observado, ajustado, pausado e retomado.
Sobre a distância entre decidir uma coisa e fazê-la — e sobre o que costuma encurtar essa distância. No fim, uma demonstração de como isso vira um cartão de prática.
A explicação mais comum para um plano que não sai do papel é a força de vontade. Ela é ruim porque não descreve nada: se você fez, teve; se não fez, faltou. É circular, e não indica o que mudar.
A distância entre pretender e fazer é comum, tem causas descritíveis e, na maior parte das vezes, responde a mudanças pequenas no desenho do plano — não na pessoa.
O que vem a seguir são as mudanças que costumam fazer diferença.
"Vou caminhar mais" é uma intenção. Ela não diz quando, nem onde, nem por quanto tempo, e por isso cada dia recomeça a decisão do zero.
Vou caminhar mais.
Terça, às 19h, com o tênis já na porta.
Há um teste simples. Daqui a duas semanas, alguém pergunta quando você fez aquilo. Se você consegue responder com um dia, era um plano. Se não consegue, era uma intenção.
Quem sabe para que serve tenta mais vezes. Isso parece óbvio e quase nunca está escrito em lugar nenhum — a razão fica subentendida, e o que sobra é a tarefa.
Também importa de quem é a razão. Um plano cuja justificativa pertence a outra pessoa continua sendo dela, e costuma ser cumprido por um tempo e abandonado depois.
Vale escrever a razão em uma frase, com as suas palavras, e deixá-la onde você vai ver antes de começar.
Planos costumam ser desenhados pensando num dia bom. O problema é que eles precisam funcionar nos outros.
Por isso vale definir, junto com a ação, a sua menor versão possível — aquela que você faria mesmo cansado, mesmo sem vontade.
Caminhar vinte minutos → calçar o tênis e caminhar cinco
Escrever o relatório → abrir o arquivo e escrever a primeira frase
Arrumar a casa → recolher o que está no chão de um cômodo
Isso não é rebaixar a meta. É impedir que um dia difícil transforme o plano inteiro em fracasso — porque, feita a versão mínima, o plano continua de pé.
Um plano que só funciona quando você está bem é um plano mal desenhado. Se ele vem exigindo demais, o que precisa mudar é ele.
Obstáculos costumam ser previsíveis. O telefone que toca, o cansaço das seis da tarde, a conversa que aparece justo na hora.
Antecipá-los não é pessimismo — é a diferença entre decidir no momento em que a dificuldade chega, quando decidir é mais caro, e ter decidido antes.
Se eu perceber que estou adiando o telefonema, então vou abrir o roteiro e fazer só a primeira ligação.
O formato é sempre o mesmo: se acontecer isto, então faço aquilo. Escrito antes, não no dia.
Lembrar de manhã que à noite você vai fazer algo raramente funciona. Na hora, a lembrança não está lá.
O que funciona é deixar um sinal no lugar e no momento: o alarme no horário, o objeto no caminho, o arquivo já aberto na tela, o pedido a alguém que convive com você.
E o mais econômico de todos: encaixar a ação numa rotina que já existe. Depois do jantar. Antes do banho. Ao sentar na mesa de manhã.
Esta é a parte que costuma faltar nos planos, e é a que mais decide se eles sobrevivem à segunda semana.
Uma tentativa que não aconteceu é informação sobre o plano, não sobre a pessoa. Quase sempre ela diz uma destas coisas: o passo estava grande demais, o horário não ajudou, faltou preparar algo antes, ou apareceu um obstáculo que não tinha sido previsto.
Todas são corrigíveis. Nenhuma delas é sobre caráter.
E retomar não é recomeçar. O plano não deixa de existir porque uma tentativa não aconteceu — dá para diminuir o passo, mudar o momento, ou simplesmente escolher uma nova data.
Registrar o que aconteceu costuma ser confundido com prestar contas. É outra coisa.
Sem registro, o que fica é a impressão geral, e a impressão geral tende a ser mais dura que os fatos — as vezes em que não aconteceu pesam mais na memória que as vezes em que aconteceu.
Com registro aparecem coisas que ninguém percebe de outro jeito. Que os dias em que funcionou tinham algo em comum. Que a dificuldade caiu depois que o passo diminuiu. Que aquilo que você previa que ia acontecer não aconteceu.
Essa última é a mais útil. Anotar antes o que você espera, e depois o que houve, transforma cada tentativa num pequeno teste — e é difícil discordar de uma anotação sua.
Escreva algo que você gostaria de fazer e ainda não fez. Nada é salvo nem enviado.
Antes
Depois
A diferença não é de esforço. É de quantas decisões sobraram para o dia.
No consultório, essas peças podem ser montadas num cartão que fica no celular durante a semana. Abaixo, uma demonstração com um exemplo simples.
O plano de prática é um recurso opcional, oferecido a quem procura um apoio concreto para dar conta de alguma coisa que importa e que vem sendo adiada — algo escolhido a partir dos próprios valores e objetivos, não de uma lista de metas.
Ele é construído pelo Dr. Fábio durante a consulta, a partir das palavras da própria pessoa, e enviado depois por um link individual. Não é um material de acesso livre e não existe um endereço público para abri-lo.
Durante o período combinado, o cartão fica no aparelho de quem o recebeu. Ao final, há duas saídas, e as duas são escolha da pessoa: guardar o percurso em um documento próprio, ou enviá-lo ao Dr. Fábio para ser retomado na consulta seguinte.
Optar por não usar é uma resposta legítima, e não atrapalha o acompanhamento. Se em algum momento o cartão passar a pesar mais do que ajudar, o lugar de dizer isso é a consulta.
Nada disso serve para fazer mais. Serve para que aquilo que importa para você tenha alguma chance de acontecer nos dias em que você não está no seu melhor — que são a maioria.
Se um plano vem deixando você pior do que antes, ele não está funcionando, por mais bem desenhado que pareça. Vale conversar sobre ele.